Não sei quanto a você, mas sou muito saudosista, gosto demais de encontrar fotos antigas e lembrar como foi aquele momento, rolar a galeria de imagens até o início dela e vir passeando entre as fotos, tenho uma habilidade de me transportar para aquele momento. Claro não é sempre, mas por vezes me encontro nesse lugar, viajando no tempo através da fotografia.

E foi nessas “viagens ao passado” que encontrei fotos de minha família, por alguns segundos me dei conta que a pessoa que via na foto, fantasiada de coelhinha, sorrindo para eu fotografar, hoje está casada e com filhos. O tempo é desolador.

“Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó”

O mundo é um moinho – Cartola

Começei então a viajar em meu próprio tempo, em minha própria história, e tenho grande chance de afirmar a você que: Você não lembra a última vez que brincou na rua até a luz do poste se acender!

Eu fiquei realmente atônito quando me fiz essa pergunta pois me veio imediatamente questionamentos por não lembrar quando minha mãe jogou meus tazos fora, quando desliguei meu tamagochi e não liguei mais, quando joguei meu super nintendo pela última vez, quando usei meu discman sony, aluguei um filme na locadora da rua próximo a minha casa, calma, você lembra o que sentiu quando descobriu que papai noel não existe?

Ok, posso ter ido longe demais, mas o propósito deste texto é para mim, talvez para você, um alerta que o tempo é desolador e se continuarmos na busca incansável pela excelencia simbólica de se alcançar algo, que talvez nem exista, você continuará sendo moído pelo mundo e perderá sonhos, pessoas, amigos e o que mais quiser colocar nessa lista, inclusive você.

Por esses dias eu estava me sentindo realmente mau, quando digo mau digo assolado pela ansiedade e medo “do que não se pode explicar”, talvez isso tenha sido por descobrir que o tempo está passando e não ter sido avisado pelo meu próprio consciente que já se fazem 39 anos de existência. Será que é por conta da minha memória que apaga o que eu comi ontem? Bem, independentemente me fez descobrir como que a corrida pelo inatingível é um verdadeiro moinho.

Me diz você, qual prioridade tem colocado em seus atos? Mas quero dificultar, tem coragem de perguntar isso ao seu filho? e a sua esposa? seus pais? “Filho(a) eu tenho estado tempo suficiente com você, a ponto de ao menos te fazer sentir-se seguro(a)? O que quero aqui é uma resposta sincera, talvez de quem está fora do barco do seu corpo e da sua bolha de consciência. Ainda com coragem de perguntar? Então faça!

Não quero aqui trazer a tona pensamentos de perda, jamais, porém gostaria de, quase chegando ao final deste texto, instigar você a pensamentos de: “eu ainda tenho o olhar e presença de carinho para aqueles que me acompanharam ser o que sou hoje” ou ainda “eu sei que não temos relacionamento, mas eu quero construir isso” e se você já tem isso tudo, “eu posso me tornar ainda mais íntimo”.

Não quero construir uma fábula falando sobre a luz do poste, o que quero é te fazer lembrar do seu dia, até o momento que apaga a luz do quarto. E vou te falar como.

Entenda melhor esse próximo trecho lendo o texto “Foto digital não é fotografia” mas vou resumir muito rapidamente aqui.

Se estiver passeando em um parque, e te der uma camera digital, talvez você tire dezenas de fotos e no final de algumas horas de passeio eu te perguntar sobre cada foto talvez não se lembre do momento ou do motivo que as fez. O interessante é que se em suas mãos tiver uma camera analógica, aquelas câmeras de 24 ou 36 poses, talvez não alcance uma dezena de fotos e provávelmente ao vê-las lembrará e contará o momento da maioria das fotos que fez.

Isso ocorre pois na foto digital a gratificação é instantânea porém efêmera, curta, então automaticamente fazemos como um story nas redes sociais que você passa 10 e não lembra de dois anteriores. Já a fotografia analógica, por ser um meio finito, reside nela a escasses de que em alguns cliques irá acabar. Você terá custo de tempo e dinheiro, ela se torna “mais importante”.

Não podemos tornar o nosso dia a dia um story de rede social, jamais construí-la com força efêmera, mas sim é de imediata necessidade dar valor a cada momento, observar o que se faz e avaliar as sensações que teve naquele momento, pensado e bem observado, essa deve ser sua busca, assim como faz para produzir uma foto analógica.

Ao tornar o momento um momento presente, certamente lembrará dos cliques quando a luz se apagar.

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